sexta-feira, 25 de junho de 2010

Somos Todos Hipócritas



Sudão, Março de 1993: Uma menina sem identidade arrasta-se em direção a um campo de refugiados montado pelas Nações Unidas. Um abutre espera pacientemente que a mãe natureza lhe sirva o almoço.

O fotógrafo sul-africano Kevin Carter também está à espera. O que seria apenas mais uma entre as muitas dezenas de fotos que já tirara naquele dia transformam-se numa imagem memorável quando o animal surge e ocupa o mesmo enquadramento. “Se ao menos o abutre abrisse as asas…” – pensou.

Vinte minutos passam e o abutre não colabora. O fotógrafo acaba por desistir e tira várias fotos da menina e do animal, uma das quais ficará imortalizada na capa de 26 de Março do New York Times como “o símbolo da fome e do horror na África”.

Depois de tirar as fotografias, Carter afasta o abutre e senta-se à sombra de uma árvore fumando um cigarro, enquanto a criança, esgotada e faminta, retoma a sua lenta e penosa marcha pela sobrevivência.

Quatorze meses depois, em 23 de Maio de 1994, Kevin Carter recebe o Prêmio Pulitzer por causa desta foto – às aclamações iniciais, porém, sucedem-se as críticas. Alguns jornalistas questionam a autenticidade da foto, sugerindo inclusive que fora “encenada”. Outros colocam em causa a ética do fotógrafo: “Um homem ajustando as lentes até conseguir o quadro perfeito do sofrimento da menina bem pode ser visto como um predador, outro abutre em cena”, escreveu o St.Petersburg Florida Times.

Em 27 de Julho desse mesmo ano, dois meses depois de ganhar o Pulitzer e ser transformado numa das sensações do momento em Nova Iorque, Kevin Carter estaciona seu automóvel à beira de um pequeno riacho nos arredores de Johanesburgo onde costumava brincar quando criança. Liga uma mangueira de jardim ao escapamento, escreve um bilhete, fecha-se no carro, liga o motor do veículo e morre por inalação de monóxido de carbono. Estava com 33 anos.

O suicídio de Kevin Carter é contado entre os fotógrafos jornalísticos como um aviso aos novatos, servindo como exemplo dos perigos de se fotografar as misérias humanas.

Carter sempre viveu o típico dilema dos jornalistas: testemunhar ou ajudar. Quando Carter partiu para o sul do Sudão, em 1993, tencionava fazer uma reportagem fotográfica com as tropas rebeldes. Em vez disso, mal o avião aterrisa e ele se depara com centenas de homens, mulheres e crianças famintos dirigindo-se a um campo de refugiados da ONU, ocasião em que tirou a foto que o sagrou internacionalmente.

O impacto da foto foi tremendo. O New York Times recebeu tantas cartas de leitores querendo saber o quê aconteceu com a criança que se viu forçado a publicar uma nota onde informava “desconhecer o seu destino”.

Antes de seu suicídio, ele escreveu: “Estou deprimido (...)! Sou assombrado pelas vívidas memórias de mortes e cadáveres, e raiva e dor, de crianças feridas e esfomeadas, de loucos que assassinam alegremente, alguns deles policiais (…). A dor de viver ultrapassa a alegria ao ponto em que esta deixa de existir.”

Não quero aqui discutir a vida, os padrões sociais, filosóficos, éticos e religiosos que nortearam a vida desse fotógrafo, que infelizmente terminou de maneira trágica. O que me deixa um pouco encabulado, é que quando vemos uma imagem como essa somos invadidos por sentimentos hipócritas.

Temos o péssimo costume de só ver o mal nas outras pessoas, e quando nos deparamos com cenas tão constrangedoras, questionamos tudo, menos o nosso próprio modo de vida.

Há um certo tempo atrás, li o livro “O Ilícito”, escrito por Moisés Naim (recomendo a leitura) onde o autor discorre sobre o poder e a atuação do crime organizado na sociedade contemporânea. Ou seja, a maldade é intrínseca ao nosso meio, por mais que não queiramos admitir.

Quem duvida do mal existente no simples ato de comprar um CD pirata (quanto aos ganhos absurdos das gravadoras e dos artistas, não é o objetivo deste opúsculo) pode até alegar que não tem nada a ver com isso, mas a consequência de nossos atos alcançam aos mais distantes rincões do globo terrestre.

Somos hipócritas, e a hipocrisia nos afasta da comunhão com Deus. Não estou falando do Deus institucionalizado, em nome do qual se matam pessoas diariamente. Me refiro ao Deus verdadeiro, que fez os céus e a terra, e que contempla a Sua criação e diz: “Povo meu, que te tenho feito?” (Miquéias 6:3). Esse Deus poderoso humaniza-se a ponto de mostrar sofrimento com o desprezo de Sua criação.

Que tenhamos a consciência das consequências de nossos atos, por mais corriqueiros que possamos achar que eles sejam....






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